Com o ex-governador fora da corrida, candidatos intensificam movimentos para conquistar seus eleitores; especialistas apontam mudanças na estratégia e na composição da disputa
A saída de José Roberto Arruda (PSD) da disputa pelo Governo do Distrito Federal, a apenas dez dias do primeiro turno, alterou a dinâmica da eleição e abriu uma nova frente de disputa entre os candidatos que permanecem no páreo.
A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que manteve a inelegibilidade do ex-governador, retirou das urnas um nome que vinha mobilizando parte significativa do eleitorado e obrigou as campanhas a recalcularem suas estratégias na reta final.
Antes de participar de uma sabatina promovida pela Codese-DF, Celina Leão (PP) evitou comentar a decisão judicial, mas reconheceu que pretende dialogar com os eleitores que apoiavam Arruda.
“É claro que eu acho que esse voto é muito ligado a nós. É um voto de centro-direita, que conhece de gestão, que quer obras, que quer uma saúde melhor, uma educação de qualidade. Esse voto a gente vai, com certeza, atrás dele”, afirmou.
Já Leandro Grass (PT) destacou o respeito que, segundo ele, marcou sua relação com Arruda durante a campanha. Questionado sobre a possibilidade de conquistar parte desse eleitorado, o candidato afirmou acreditar que os apoiadores do ex-governador também buscam mudanças no Distrito Federal.
“Assim como os meus eleitores, os dele também querem avanço e melhorias para o DF. A gente vai tentar dialogar com a população com compromisso e, principalmente, para colocar Brasília acima de qualquer questão ou critério”, declarou.
Paula Belmonte (PSDB) também sinalizou que pretende procurar Arruda para apresentar seu programa de governo e buscar apoio político. A candidata afirmou que pretende conversar ainda com lideranças e apoiadores ligados ao ex-governador.
“Vou procurar o Arruda para conversar, porque acredito que precisamos unir aqueles que defendem uma mudança no Distrito Federal”, afirmou.
Ricardo Cappelli (PSB), por sua vez, manifestou solidariedade a Arruda e criticou a decisão da Justiça Eleitoral. O candidato também acusou Celina Leão de ter atuado para retirar o ex-governador da disputa.
“A 10 dias da eleição, Celina consegue uma vitória ao retirar Arruda do pleito. Ela trabalhou muito por isso”, afirmou Cappelli.
Kiko Caputo (Novo) declarou que sempre defendeu que a eleição fosse decidida pelo voto, mas afirmou que a decisão judicial deve ser cumprida. Em seguida, dirigiu-se diretamente aos eleitores que avaliavam votar em Arruda e pediu apoio à sua candidatura.
Disputa pelo eleitorado de Arruda
A retirada do ex-governador transforma os votos que seriam destinados à sua candidatura em um dos principais focos da reta final da eleição.
Para o cientista político André César, sócio da Hold Assessoria, a mudança é imediata. Segundo ele, Arruda mantinha apelo eleitoral e aparecia em posição competitiva nas pesquisas, o que torna sua saída um fator relevante para os demais candidatos.
Na avaliação do especialista, parte desse eleitorado pode migrar para Celina Leão, especialmente entre eleitores identificados com a centro-direita e com a agenda de gestão defendida pelo ex-governador.
O mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), Valdir Pucci, também avalia que a reta final será marcada pela disputa por esse eleitorado. Segundo ele, um dos principais desafios das campanhas será informar os eleitores de que, com o indeferimento definitivo do registro, eventual voto em Arruda não será convertido em voto válido para o cargo.
Pucci também chama atenção para a possibilidade de parte do eleitorado manter o voto no ex-governador como forma de protesto ou por desconhecimento da situação jurídica da candidatura.
Direita do DF entra no centro da disputa
Para Érico Oyama, analista político da BMJ Consultoria, a saída de Arruda provoca uma reorganização especialmente entre os eleitores de direita.
Segundo ele, Celina Leão tende a disputar esse eleitorado por afinidade ideológica, enquanto candidatos como Paula Belmonte e Kiko Caputo também podem buscar parcelas desse grupo, principalmente entre aqueles que não pretendem apoiar a atual governadora.
André César aponta ainda outro movimento possível: parte dos antigos eleitores de Arruda pode optar por um voto de protesto e migrar para candidaturas de oposição ao atual governo, incluindo Leandro Grass.
“O voto de protesto contra o sistema” é, na avaliação do cientista político, um dos fatores que podem influenciar a redistribuição desse eleitorado na reta final.
Eduardo Galvão, especialista em relações governamentais e professor do Ibmec Brasília, avalia que a saída de Arruda altera tanto a aritmética quanto a estratégia da eleição. Para ele, a ausência do ex-governador retira da disputa um concorrente situado no mesmo campo político de Celina, mas não significa necessariamente que todos os seus votos serão transferidos para a governadora.
“Parte desse eleitorado estava justamente mobilizada contra o atual governo e pode procurar outros candidatos. A reta final passa, portanto, a ter uma disputa adicional: a herança política do ex-governador”, afirmou.
Efeito também chega às eleições proporcionais
A saída de Arruda pode produzir reflexos que vão além da disputa pelo Palácio do Buriti.
Eduardo Galvão explica que candidaturas majoritárias funcionam como estruturas de mobilização para candidatos a deputado distrital e federal. Com a retirada de Arruda, candidatos que estavam alinhados ao ex-governador terão de definir rapidamente como conduzir suas campanhas.
“Uma candidatura ao governo organiza palanque, mobiliza militância, dá visibilidade e ajuda candidatos proporcionais a estruturar suas campanhas”, afirmou.
Segundo o especialista, esses candidatos podem manter a identidade política construída ao lado de Arruda, aproximar-se de outra candidatura ao governo ou concentrar esforços em suas próprias campanhas.
A capacidade de Arruda de manter influência sobre sua base também será um fator relevante. Caso consiga orientar seus apoiadores para determinadas candidaturas proporcionais, parte de sua estrutura política poderá continuar ativa durante o restante da campanha.
A retirada do ex-governador, portanto, não encerra sua presença no cenário eleitoral. Na reta final, o que entra em disputa é justamente a destinação de seu eleitorado, sua influência política e o espaço que sua estrutura ocupava na eleição.
Da Redação














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