O revolucionário tratamento brasileiro com pele de tilápia, desenvolvido por cientistas Universidade Federal do Ceará, ganhou três prêmios nacionais em apenas um mês, um reconhecimento merecidíssimo.

Os estudos brasileiros com pele de tilápia para tratar queimaduras, feridas e outros ganharam 3 prêmios em novembro - Foto: divulgação
Os estudos brasileiros com pele de tilápia para tratar queimaduras, feridas e outros ganharam 3 prêmios em novembro – Foto: divulgação

O revolucionário tratamento brasileiro com pele de tilápia, desenvolvido por cientistas Universidade Federal do Ceará, ganhou três prêmios nacionais em apenas um mês, um reconhecimento merecidíssimo.

As pesquisas premiadas envolvem o uso medicinal da pele do peixe em diversas áreas: para tratar queimaduras, feridas, para cirurgias plásticas e reparadoras e também no uso veterinário, em cães.

Com essas comendas recebidas em novembro, as pesquisas com a pele de tilápia já somam 19 premiações, todas em primeiro lugar. Que orgulho dos nossos cientistas!

Os prêmios

No último dia 24 de novembro, um grupo de pesquisadores do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC recebeu o Prêmio Mentes da Inovação, promovido pela empresa Bayer.

Com a pesquisa “O curativo biológico de pele de tilápia liofilizada: um novo dispositivo regenerativo para tratamento de feridas, queimaduras e cirurgias plásticas reparadoras”, os pesquisadores foram premiados na categoria Saúde.

O estudo apresenta como produto a versão liofilizada do curativo de pele da tilápia, ou seja, o curativo é desidratado por um processo a frio e sob baixa pressão.

“É muito diferente de você fazer desidratação por calor. Quando você a faz por aquecimento, você acelera a degradação do tecido, você desnatura as proteínas. Já a liofilização conserva a estrutura do tecido”, explica o pesquisador Carlos Roberto Koscky Paier, que é um dos orientadores da pesquisa, juntamente com os professores Felipe Rocha, Odorico de Morais e Elisabeth de Morais e o médico Edmar Maciel, coordenador-geral das pesquisas com pele de tilápia.

A vantagem

A vantagem desse novo curativo é que ele reduz os custos existentes no curativo de pele de tilápia conservada em glicerol, que é o material que vem sendo utilizado atualmente nas pesquisas e tratamentos.

Como esse curativo tem a necessidade de estar armazenado sob refrigeração, ele gera gastos maiores com a energia e com o transporte. Já o liofilizado não necessita dessa preocupação no armazenamento, uma vez que pode ser mantido em temperatura ambiente.

“Para se ter uma ideia, quando a gente precisa esterilizar a pele em São Paulo, a gente envia a pele liofilizada por SEDEX, pagando quarenta, cinquenta reais. Antigamente, quando a pele estava no glicerol, a gente pagava mil reais, porque ela tinha que ser refrigerada. Então, é um ganho logístico absurdo”, avalia Paier, que também é técnico de laboratório da UFC e coordenou a submissão do trabalho, detalhado em forma de monografia, para concorrer ao prêmio da Bayer.

A defesa do trabalho foi feita em apresentação oral pela doutoranda em Farmacologia Nathaly Mendonza, sob orientação de Paier.

Aplicação ginecológica

Pela segunda vez, as pesquisas com pele de tilápia vencem o Prêmio Abril & Dasa de Inovação Médica com Veja Saúde. Desta vez, na edição de 2021, um grupo de pesquisadores da área de ginecologia, coordenado pelos professores Leonardo Bezerra e Zenilda Bruno, da Faculdade de Medicina da UFC, venceu a comenda na categoria Tratamento. A cerimônia de premiação acontecerá em formato virtual em 15 de dezembro.

O prêmio foi destinado ao estudo “A pele de tilápia na saúde sexual feminina e cirurgias reparadoras complexas: recuperação da função sexual de mulheres com estenose e malformação vaginal, autoaceitação de mulheres transgênero e reparo de sindactilia grave”.

Desde 2016, o Prof. Leonardo Bezerra vem trabalhando, de forma pioneira, na técnica de utilização do curativo de pele de tilápia para uso ginecológico.

O uso da pele de tilápia na área da Ginecologia, iniciado a partir de pesquisas desenvolvidas em Fortaleza, ganhou destaque internacional. A primeira cirurgia de redesignação de sexo (masculino para feminino), realizada no mundo, utilizando a pele do peixe, ocorreu em Cali, na Colômbia, com matéria prima originária do Banco de Peles de Tilápia, instalado no NPDM/UFC.

O procedimento cirúrgico, que teve duração de uma hora, foi realizado em um paciente de 36 anos de idade, por uma equipe que contou com as participações dos pesquisadores cearenses Edmar Maciel Lima Júnior e Leonardo Bezerra, bem como do cirurgião plástico Álvaro Rodriguez, referência na Colômbia em cirurgia de redesignação sexual.

Mais de trinta cirurgias desta em pacientes da América Latina já foram realizadas naquele país.

Autor da técnica de neovaginoplastia usando a pele de tilápia, Leonardo Bezerra informa que o procedimento é mais rápido, favorece a recuperação e apresenta resultados anatômicos bastante satisfatórios, já amplamente publicados na literatura médica.

As cirurgias vêm sendo realizadas desde 2017 sob protocolo de pesquisa clínica e já beneficiaram mais de 20 pacientes na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC/UFC) com rara síndrome de agenesia vaginal congênita ou câncer vaginal, sob coordenação da Profa. Dra. Zenilda Vieira Bruno.

Uso na veterinária

A terceira premiação foi dada à primeira pesquisa que utiliza a pele da tilápia para o uso oftálmico. A veterinária Mirza Melo apresentou, no XVII Congresso Brasileiro de Oftalmologia Veterinária, o estudo “Enxerto de pele de tilápia em úlcera de córnea de cães”, o qual recebeu o prêmio de melhor trabalho do congresso. Fruto de sua pesquisa de mestrado na UFC em Medicina Translacional, sob orientação do Prof. Odorico de Morais, o trabalho descreve o primeiro caso de uso da pele da tilápia in natura em lesões de olhos de cães.

“Apesar de haver 48 aplicações para a pele de tilápia na medicina humana, o uso oftálmico nunca havia sido realizado, e o que vemos em nossos resultados é que, além de fácil conservação e manipulação no transcirúrgico, temos um ótimo reparo corneano e um pós- cirúrgico sem dor, sem infecções ou complicações após a aplicação da pele”, explica a pesquisadora Mirza Melo.

Mirza esclarece que hoje a técnica vem sendo usada utilizando não mais a pele in natura, mas a sua matriz dérmica, também denominada scaffold, que é um arcabouço feito de colágeno puro, obtido através de um longo processo laboratorial de remoção das células do peixe. Ela aponta que esse novo material tem proporcionado ótima cicatrização e transparência corneana.

A veterinária informa que 119 cães já foram operados com a técnica e que, agora, estão sendo estudadas novas possibilidades de aplicação em cirurgia nos olhos. “Estamos evoluindo com nossos resultados para que a técnica também seja usada em olhos humanos”, adianta.

Expansão da pesquisa

O coordenador-geral das pesquisas com pele de tilápia, Edmar Maciel, que foi quem iniciou esses estudos em 2015, comemora as premiações como a valorização da importância desses achados científicos.

“Esses prêmios foram ganhos em três áreas distintas, por três pessoas diferentes que não a minha pessoa, o que mostra um engajamento de todos na pesquisa, nas mais diversas especialidades e nas mais diversas áreas. Isso mostra que a nossa pesquisa é gerenciada de forma horizontal, na qual todos participam, todos alcançam o sucesso e todos têm o reconhecimento”, celebra.

Edmar destaca que, neste semestre, o grupo de pesquisadores envolvidos nos estudos com pele de tilápia chegou a 297 pessoas, distribuídos em nove estados brasileiros e oito países.

“Esses prêmios, em primeiro lugar, reconhecem o mérito, o esforço, a dedicação dos pesquisadores que estão à frente desse projeto ao longo desses anos”, destaca o pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, Rodrigo Porto. Segundo ele, todo o reconhecimento nacional e internacional dessas pesquisas se dá por elas representarem “um exemplo cristalino” dos resultados práticos dos investimentos em pesquisa na melhoria da vida das pessoas.

Ele reforça ainda que a UFC tem procurado atuar de maneira mais próxima dos pesquisadores no processo de reconhecimento da propriedade intelectual de seus inventos, através das patentes. No caso da pele de tilápia, já existem quatro patentes para produtos desenvolvidos a partir desse material. Em três delas, a UFC detém 50% dos direitos autorais e, na quarta, 25%.

Pele de tilápia - Foto: Viktor Braga / UFC
Pele de tilápia – Foto: Viktor Braga / UFC

Com informações da Universidade Federal do Ceará

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