Candidatos que ficaram fora da corrida pelo Buriti podem influenciar a eleição decisiva, mas transferência de votos não é automática; Cappelli já declarou apoio a Leandro Grass

A disputa pelo Governo do Distrito Federal entrou, nesta segunda-feira (5), em uma nova e decisiva etapa. Com Celina Leão (PP) e Leandro Grass (PT) confirmados no segundo turno, marcado para 25 de outubro, as campanhas passam a mirar não apenas os adversários, mas principalmente o eleitorado que escolheu candidatos eliminados na primeira rodada.

Entre os votos que despertam maior interesse estão os de Paula Belmonte (PSDB) e Kiko Caputo (Novo). Juntos, os dois receberam 212.913 votos no primeiro turno — um contingente que, em uma eleição apertada, pode ter peso relevante na definição do próximo governador do DF.

De acordo com a totalização oficial divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Celina terminou o primeiro turno com 825.530 votos, ou 49,93% dos votos válidos, enquanto Grass alcançou 569.930 votos, correspondentes a 34,47%. Paula Belmonte ficou em terceiro, com 140.765 votos (8,51%), e Kiko Caputo terminou em quarto, com 72.148 (4,36%).

Celina ficou a apenas 168 votos da vitória no primeiro turno

O resultado ganhou um componente ainda mais simbólico porque Celina Leão ficou muito próxima de evitar a segunda votação.

Com 1.651.394 votos válidos contabilizados no DF, a governadora precisava alcançar mais de 50% para vencer diretamente. A marca necessária era de 825.698 votos. Celina terminou com 825.530 — apenas 168 votos abaixo do necessário.

A diferença ajuda a explicar por que cada grupo de eleitores passou a ser observado com atenção pelas duas campanhas.

Paula representa o maior “espólio” entre os derrotados

Dos 212.913 votos que estão no centro das articulações, a maior parcela pertence a Paula Belmonte.

A candidata do PSDB recebeu 140.765 votos, quase o dobro da votação de Kiko Caputo. Seu posicionamento, portanto, terá importância política não apenas pelo eventual apoio formal que possa oferecer, mas também pela capacidade de influenciar parte de seus eleitores.

Paula, entretanto, não tratou a decisão como uma simples escolha entre dois lados. Segundo o Correio Braziliense, a candidata afirmou, após o resultado, que “não defende ideologia, mas princípios e valores”, enquanto aguarda as discussões políticas sobre o segundo turno.

Esse discurso pode indicar que uma eventual negociação não necessariamente será baseada apenas em uma declaração de voto.

Kiko coloca o Novo no centro das negociações

Kiko Caputo, por sua vez, terminou a primeira rodada com 72.148 votos, o equivalente a 4,36% dos válidos.

A posição do candidato do Novo chama atenção porque seu eleitorado está associado a uma agenda mais liberal e de direita, enquanto a disputa do segundo turno coloca frente a frente uma candidata identificada com a direita e um candidato do PT.

Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, Kiko aparece como uma exceção entre os candidatos derrotados que discutem apoio a Grass e deve seguir a orientação do Novo.

A decisão pode ter impacto principalmente sobre a composição política do segundo turno, embora não exista garantia de que todos os seus eleitores acompanharão uma eventual orientação partidária.

Cappelli já escolheu Grass

Enquanto Paula e Kiko ainda são alvos das articulações, Ricardo Cappelli (PSB) já definiu sua posição.

Quinto colocado na disputa, Cappelli recebeu 36.828 votos, ou 2,23% dos válidos, e anunciou apoio a Leandro Grass.

Em declaração publicada nas redes sociais, Cappelli afirmou: “Celina e Ibaneis de novo, não. No 2º turno, votarei em Leandro Grass.”
O apoio acrescenta uma primeira sinalização concreta ao bloco que Grass tenta construir para reduzir a vantagem obtida por Celina no primeiro turno.

Grass promete procurar Paula e Kiko

A campanha petista já deixou claro que pretende conversar com todos os candidatos que ficaram fora da segunda rodada.

Leandro Grass afirmou que pretende procurar Paula Belmonte, Kiko Caputo, Ricardo Cappelli e José Roberto Arruda em busca de apoio. A estratégia é ampliar a frente eleitoral e tentar transformar a diferença superior a 255 mil votos registrada no primeiro turno em uma disputa mais equilibrada.

O desafio do petista é significativo: Celina terminou a primeira etapa com 255.600 votos a mais que Grass e chegou ao segundo turno com praticamente metade dos votos válidos.

Celina também terá de ampliar sua frente

A governadora chega à segunda etapa em posição confortável, mas não pode simplesmente considerar os votos de Paula e Kiko como automaticamente incorporados à sua candidatura.

Celina já afirmou que pretende buscar apoio dos candidatos derrotados e adotar uma postura de diálogo. A movimentação é particularmente importante porque os eleitores de Paula e Kiko não formam necessariamente um bloco homogêneo.

Além disso, o segundo turno modifica a lógica da eleição. O eleitor que escolheu uma terceira via no primeiro turno agora terá apenas duas opções para governador — ou poderá optar pelo voto branco, nulo ou pela abstenção.

Mais de 249 mil votos estão fora dos dois finalistas

Se os votos de Cappelli forem acrescentados aos de Paula e Kiko, chega-se a 249.741 votos obtidos por três candidaturas que não avançaram para o segundo turno.

Esse número representa um universo eleitoral relevante, embora seja incorreto tratar todos esses votos como transferíveis automaticamente.

A experiência de outras eleições mostra que o apoio de um candidato derrotado pode influenciar seus eleitores, mas não significa necessariamente que todos votarão no nome indicado. A transferência de votos é uma hipótese política, não uma operação matemática.

Abstenções, brancos e nulos também entram na conta

Outro fator que pode ser decisivo é o comportamento de quem não escolheu nenhum candidato no primeiro turno.

No DF, 74.774 eleitores votaram em branco e 89.910 anularam o voto. A abstenção chegou a 18,99%, com 426.067 eleitores aptos que não compareceram às urnas.

Esses eleitores não podem ser tratados como um bloco de votos disponíveis, mas representam outro universo que as campanhas poderão tentar mobilizar no segundo turno.

A eleição agora é outra

Apesar de Celina ter encerrado o primeiro turno na liderança, a disputa começa novamente em termos estratégicos.

A governadora precisa preservar sua ampla vantagem e, ao mesmo tempo, evitar que Grass consiga transformar o segundo turno em uma eleição de rejeição à atual gestão. O petista, por outro lado, terá de ampliar sua votação em regiões onde Celina foi dominante e conquistar eleitores que não votaram nele na primeira etapa.

O mapa eleitoral mostra diferenças importantes entre as regiões do DF. Grass teve desempenho especialmente forte em áreas como a Asa Norte, enquanto Celina obteve votações superiores a 50% em regiões como Ceilândia e Taguatinga.

A disputa, portanto, será também territorial.

O fator político por trás dos 213 mil votos

Mais do que simplesmente contar votos, as próximas três semanas serão marcadas por negociações políticas.

Paula Belmonte e Kiko Caputo passaram a ocupar uma posição estratégica porque representam, juntos, 212.913 votos — cerca de 12,9% dos votos válidos do primeiro turno. O número é suficientemente grande para despertar o interesse dos dois finalistas, mas não significa que esse eleitorado esteja à disposição de quem conseguir primeiro o apoio dos candidatos.

Para Celina, conquistar parte desse eleitorado pode significar ampliar a margem que já construiu. Para Grass, esses votos representam uma das principais oportunidades de reduzir a distância e tornar a eleição mais competitiva.

O segundo turno será realizado em 25 de outubro, e até lá as campanhas terão de negociar apoios, apresentar novas propostas e, principalmente, convencer o eleitor que não escolheu nenhum dos dois no primeiro turno.

A pergunta que começa a dominar os bastidores do Palácio do Buriti é simples — mas pode definir o resultado da eleição:

dos 212.913 votos conquistados por Paula Belmonte e Kiko Caputo, quantos irão para Celina, quantos poderão migrar para Grass e quantos eleitores decidirão não seguir orientação alguma?

Da Redação

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