Aclamado como o “verdadeiro Multiverso da Loucura”, filme é intimista e bobo na medida certa

Em uma época em que remakes, sequências e revivals tomam conta das produções de Hollywood, é gratificante assistir a um filme como Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo. Aclamado pelos fãs como o “verdadeiro Multiverso da Loucura”, o longa escrito e dirigido por Dan Kwan e Daniel Scheinert tem vários elementos surreais, mas chama a atenção por ser inesperadamente bobo e intimista.

O começo do filme é perfeito ao estabelecer o caos que é a vida de Evelyn Wang (Michelle Yeoh). Administrando uma lavanderia no subúrbio, um pai idoso em casa, um casamento desgastado e uma relação confusa com a filha, a protagonista faz de tudo para manter todas as áreas da vida em funcionamento. Até, é claro, que um evento fantástico a faz sair da rotina e encarar outras Evelyns de outras realidades.

Assim como vários filmes que colocam personagens frente a frente consigo mesmos, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo gera uma reflexão com a qual é fácil se identificar: como teria sido minha vida caso tivesse tomado decisões diferentes? O roteiro é permeado por essa discussão, que começa sutil, mas cresce no decorrer da trama.

Como várias outras mulheres, Evelyn se viu engolida pela rotina e necessidade de cuidar de todos, e deixou a si mesma de lado. Nesse contexto, ver outras versões de si mesma gera um sentimento agridoce, como se a protagonista tivesse tomado todas as decisões erradas. Ao mesmo tempo, a Evelyn apresentada ao público também se dividiu em várias para tentar dar conta de sua rotina, e pouco a pouco se distraiu do que era realmente importante.

Isso é simbolizado pela relação entre a protagonista e a filha, Joy (Stephanie Hsu). Como praticamente toda relação entre pai e filho, Joy e Evelyn discordam uma da outra em vários momentos e, de uma forma um pouco surpreendente, são até meio parecidas. É a partir dessa relação conflituosa que Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo fala sobre sentimentos, defeitos e o poder que temos sobre aqueles que amamos. Apenas quando vê o que é capaz de fazer com a própria filha, Evelyn entende que precisa assumir sua parcela de responsabilidade e até admitir que não é tão perfeita quanto gostaria (e tudo bem).

Então, no meio de uma reflexão profunda sobre a vida e o significado das coisas, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo pega o espectador de surpresa ao colocar uma cena de pancadaria em câmera lenta, com uma música grandiosa ao fundo e algum elemento inesperado – como pessoas fantasiadas ou virando confete. Faz sentido? Nenhum, mas essa falta de razão combina com a temática do filme, que repetidamente se volta para a pergunta: por que fazemos o que fazemos e somos o que somos? Qual é o sentido de tudo isso?

Falando assim, pode parecer que o filme é contemplativo ao extremo. Mas além de cenas de ação engraçadas e intensas, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo chama a atenção pelo equilíbrio entre o grandioso e o corriqueiro. Evelyn Wang é uma mulher comum, vestida de forma comum, enfrentando burocracias da vida cotidiana ao lado do marido e do pai – e socando algumas pessoas pelo caminho. Há um charme especial em colocar pessoas simples (no melhor sentido da palavra) passando por situações extraordinárias, afinal, já temos heróis de uniforme e capa o suficiente.

Esse contraponto também é representado por uma das cenas mais fortes do filme, que acontece em completo silêncio e com dois elementos que poucos poderiam prever. Após tantas sequências com tudo acontecendo em todo o lugar (e ao mesmo tempo), a cena é um respiro bem-vindo, que nos faz pensar o quanto também somos bombardeados por informações, música, fotos e stories o tempo todo, e gostaríamos apenas de um pouco de calmaria de vez em quando.

A parte de ficção científica é explicada com analogias de fácil entendimento. Tudo o que acontece no filme poderia ser complexo demais, mas Kwan e Scheinert optam por um texto que justifica apenas o necessário para o espectador acompanhar a história, sem precisar soar superior ou inteligente demais.

Em sua jornada para desvendar o significado da vida, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo termina entregando uma resposta singela e pouco conclusiva. Como humanos, estamos sempre buscando sentido para as coisas, tanto boas, quanto ruins, que acontecem em nossas vidas. Se não há uma resposta para isso, se tudo é obra do puro acaso, não é melhor passar por esse turbilhão de loucuras e imprevisibilidades ao lado de quem amamos?

A mensagem é simples, mas legítima e combina com o filme e com o momento que a humanidade passa em 2022. Afinal, após tantas perdas, pandemia, guerras e crises, será que tudo o que precisamos não é de um pouco de amor – e algumas lutas meio bobas?

De: Redação / Fonte: Jovemnerd

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