Filme sobre apocalipse iminente que ninguém se importa funciona nos bons momentos isolados, mas sofre para construir uma narrativa em torno deles

Entre a chegada recente no circuito de premiações e a elevação ao status de autor em Hollywood, a carreira de Adam McKay é dessas trajetórias curiosas da indústria estadunidense pelo grau de modulação que passou em todo o processo enquanto na busca para manter intacta suas vocações originais. Passível da classificação de “sobrevivente” na tal sublimação do filme de médio orçamento, o diretor permaneceu interessado no exercício da sátira que definiu seu início no “Saturday Night Live”, da comédia mais ingênua do primeiro “O Âncora” até as proposições sérias de seu “Vice”. O que mudou foi a posição, os orçamentos.

É preciso destacar isso quando se fala de “Não Olhe Para Cima” pois o filme da Netflix no fundo não deixa de ser a jornada de retorno do filho pródigo às suas origens, ainda que na medida do possível dentro do novo cenário e da altura ao qual alçou-se o diretor. Depois de duas cinebiografias e com outra no horizonte, McKay aqui se envereda de novo pelos caminhos da ficção agora no interesse de solidificar o status de cineasta, é verdade, mas também interessado em reavivar o tipo de proposta que definiu suas comédias de estúdio nos primeiros anos de profissão. Se em tom sua nova produção não deve em nada aos testes de limites que impôs em “A Grande Aposta” e “Vice” – ainda mais com uma premissa que torna literal esse exercício – ela também carrega a mesma estrutura de esquetes que esteve por trás de projetos menores como “Os Outros Caras” e “Tudo Por Um Furo”.

A diferença fundamental, de novo, é a megalomania, a escala do alcance do elenco e (sobretudo) a maior liberdade na direção para chegar onde se interessa. Dizer que McKay politizou-se a partir de sua guinada para os círculos “nobres” é um equívoco dos grandes – É pelo menos desde “Quase Irmãos” que ele demonstra interesse por temas do tipo – mas o como ele conduz o filme sem as amarras do “baseado em fatos” que define os méritos e entraves de “Não Olhe Para Cima”.

Adam McKay (à esquerda) orienta Jennifer Lawrence no set (Foto: Niko Tavernise/Netflix)

Outro ponto importante dessa equação e que soa auto-explicativa por si só é o aprofundamento do cinismo, uma manobra coerente dada a proposta apocalíptica da comédia da vez, mas que segue uma reta descendente em relação aos outros dois antecessores. A narrativa é de um lento desespero sufocado pelas circunstâncias: os cientistas de Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence servem de protagonistas não apenas para fazer jus à premissa de que ninguém se importa com o apocalipse iminente e representado no asteroide maciço que se aproxima do planeta, mas para encenar o contato de indivíduos externos com o cenário presente da civilização, atolado de necessidades imediatistas e vazias como a busca pela audiência, o interesse por pautas fúteis e a polarização de todos os debates.

“Não Olhe Para Cima” nesse sentido não deixa de ser uma espécie de nova versão de “A Mulher Faz o Homem”, ainda que no caso de agora McKay substitua a esperança de Frank Capra pelo pessimismo e surfe nessa onda com todo vigor que lhe é de direito. Se em 1939 era sobre como James Stewart buscava preservar seus ideais (e portanto os nacionais) dentro das maquinações políticas de Washington, desta vez os cientistas são vítimas em todas as circunstâncias, vulneráveis a ataques e corrupções que desafiem sua lógica de mundo. Para DiCaprio e Lawrence o prato é cheio, até porque o longa permite que durante duas horas a dupla traduza esse desespero de todos os jeitos físicos possíveis – o ator pelo estresse do corpo, a atriz nas caras e bocas gradativamente desfiguradas na esfera pública.

É dessa estrutura que McKay passa a encenar os esquetes, repetindo o esquema de “Vice” de agredir vários atores em múltiplas frentes. Do núcleo político de Meryl Streep e Jonah Hill à iniciativa privada (com um ótimo Mark Rylance fazendo uma amálgama de todos os bilionários extrovertidos da História recente), passando pela mídia, celebridades e os militares, o filme move o olhar nesse ritmo e de olho no escalonamento dos problemas. O meteoro se aproxima, nada é feito, a fadiga é crescente e o relógio se aproxima da meia-noite – a burrice enfim triunfa, parece comentar o cineasta.

Os cientistas são vítimas em todas as circunstâncias, vulneráveis a ataques e corrupções que desafiem sua lógica de mundo

O jogo todo é interessante e McKay com naturalidade encena bons momentos de humor, mas a questão é que a falta de uma linha guia mais firme faz com que a narrativa se torne errática, ainda mais na duração de quase duas horas e meia. Se nos últimos trabalhos o diretor contava com a progressão dos fatos para organizar o ritmo, a sátira aposta na crescente de cinismo para alimentar e avançar a comédia, mas as cenas não se somam. “Não Olhe Para Cima” pode ser muito frontal na crítica do imediatismo, mas sua atenção ao encadeamento dos eventos chafurda no mesmo chiqueiro e os bons momentos se dissolvem em um filme de curso muito truncado.

O maior traço disso talvez seja o fato das gags recorrentes serem o que mais rende ao longo da narrativa, até por sugerir uma amarração melhor que a realizada pelo diretor e reforçar o absurdo ao redor dos personagens – a incredulidade de Lawrence com o pequeno roubo de um general do exército ou sua presença como meme são atos bem mais fortes que o tom de urgência soletrado tantas vezes nos diálogos. É um vai-não vai que também prejudica os dois protagonistas, cujos arcos são esvaziados apenas para servir em prol da crítica. A estratégia é similar ao feito em “Tudo Por Um Furo”, mas há um problema de lógica que trava o andamento: lá ela derivava da condição do projeto enquanto continuação desnecessária, agora ela contradiz o cenário de possibilidade da premissa, uma grande alegoria orgulhosa sobre o aquecimento global.

Fonte:B9

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