Entre a agressão física e a verbal, o debate eleitoral revela uma cultura enraizada de machismo e desrespeito, onde a violência se disfarça de normalidade.

Recentemente, o candidato à prefeitura de São Paulo, Pablo Marçal, se viu no centro de uma polêmica ao ser agredido por José Luiz Datena durante um debate eleitoral promovido pela TV Cultura. Em uma live no Instagram, Marçal minimizou a gravidade do ocorrido, chamando-o de “só um esbarrão”, enquanto exibia um braço imobilizado e falava sobre seu estado de saúde após pernoitar no Hospital Sírio Libanês. Essa situação não é apenas uma questão pessoal entre candidatos; ela reflete uma dinâmica mais ampla que permeia a sociedade contemporânea.

A frase “foi só um esbarrão” ressoa como um eco das tentativas de deslegitimar a violência que permeia a vida pública e privada. Ao afirmar que “nós vamos seguir o jogo”, Marçal parece se conformar com uma realidade onde a agressão é trivializada, como se fosse parte do pacote da política. Essa normalização da violência – seja física, moral ou verbal – é um reflexo de uma cultura que ainda está presa aos conceitos freudianos de poder e dominação.

Marçal admite ter enviado mensagens pedindo desculpas a Datena antes do debate, reconhecendo que sua trajetória política também é marcada por ataques e provocações. “Eu tô colhendo o que eu plantei”, diz ele, revelando uma consciência sobre as consequências de um comportamento agressivo que não é exclusivo dele. A cultura do ataque gratuito e da retórica violenta parece ser um padrão estabelecido entre os competidores políticos, onde desrespeitar o adversário é visto como estratégia.

A declaração de Marçal sobre fazer exame de corpo delito no IML e sua referência a Datena como “bicho preguiça” não apenas expõem sua indignação, mas também reforçam a ideia de que essas interações são permeadas por uma masculinidade tóxica. O uso de termos pejorativos e o tom jocoso não ajudam em nada na construção de um discurso político saudável; ao contrário, perpetuam estereótipos que só alimentam o ciclo vicioso da violência.

O fato de que essa cena se desenrolou em rede nacional durante um debate eleitoral é alarmante. O público assistiu não apenas a um confronto físico, mas também a uma demonstração clara da falta de respeito e civilidade que deveria caracterizar qualquer discussão democrática. Em vez disso, o que se viu foi uma performance grotesca em que as regras do jogo foram ignoradas em prol do espetáculo.

Ademais, é importante destacar o número alarmante de memes e estratégias de marketing que surgem em torno desse tipo de cena lamentável. A banalização da violência através do humor ou da publicidade transforma questões sérias em mero entretenimento. Essa brincadeira não deve ser confundida com publicidade; quando situações graves são reduzidas a piadas ou campanhas virais, perdemos o foco nas verdadeiras implicações sociais desse comportamento.

À medida que buscamos evolução social e emocional – aspirando ao pensamento junguiano, mais centrado na integração e compreensão dos arquétipos humanos – somos confrontados com realidades brutais que nos puxam para baixo. A violência não deve ser vista como algo normal ou aceitável; ela precisa ser denunciada e combatida em todas as suas formas.

Se realmente queremos avançar como sociedade, é fundamental rejeitar essa lógica violenta e construir diálogos respeitosos. O caminho para isso começa na conscientização sobre os impactos das nossas palavras e ações, tanto na arena política quanto nas relações cotidianas. É hora de ressaltar que Freud continua relevante; suas teorias devem ser reinterpretadas à luz das novas realidades sociais. Precisamos integrar seu legado com uma nova era de compreensão psicológica que priorize o respeito mútuo e a dignidade humana.

Katia Arruda, especialista em Sexualidade e Afetividade.

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